Medicamento da Eli Lilly atua em dois receptores hormonais e ganhou espaço no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Entenda os resultados dos estudos clínicos, os efeitos colaterais e os alertas de segurança.
O Mounjaro, medicamento desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly and Company, tornou-se um dos tratamentos mais conhecidos na área da saúde metabólica. Seu princípio ativo, a tirzepatida, atua em mecanismos hormonais relacionados ao controle da glicose, do apetite e da saciedade, com resultados relevantes em estudos clínicos sobre diabetes tipo 2 e redução do peso corporal.
A popularização do medicamento, entretanto, trouxe dúvidas sobre suas indicações, a segurança do tratamento e as diferenças entre produtos comercializados em diferentes países. As informações oficiais do fabricante e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ajudam a esclarecer essas questões.
No Brasil, o Mounjaro recebeu registro inicial para melhorar o controle glicêmico de adultos com diabetes mellitus tipo 2. Em junho de 2025, a Anvisa aprovou também sua indicação para o controle crônico do peso em adultos que atendam aos critérios clínicos estabelecidos. Em abril de 2026, a agência ampliou a indicação para diabetes tipo 2, incluindo pacientes pediátricos a partir dos 10 anos de idade.
Fonte: Anvisa — Mounjaro: nova indicação e Anvisa — ampliação da indicação pediátrica.
O que é a tirzepatida e como ela funciona?
A tirzepatida é um medicamento injetável que atua simultaneamente nos receptores de dois hormônios envolvidos no metabolismo: o GIP, ou polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose, e o GLP-1, ou peptídeo semelhante ao glucagon-1.
Essa ação combinada contribui para melhorar a resposta do organismo à glicose, estimular a secreção de insulina de maneira dependente dos níveis de açúcar no sangue e reduzir a ingestão de alimentos.
A substância também retarda o esvaziamento gástrico e influencia os mecanismos de apetite e saciedade. Como consequência, muitos pacientes apresentam menor ingestão calórica e redução do peso corporal.
A tirzepatida não é insulina e não deve ser confundida com os medicamentos que atuam exclusivamente sobre o receptor de GLP-1. Seu mecanismo de ação envolve os dois receptores hormonais.
Quais são as indicações do Mounjaro no Brasil?
A indicação deve respeitar o registro sanitário brasileiro e a bula vigente do medicamento.
Diabetes mellitus tipo 2: o Mounjaro é utilizado em conjunto com alimentação adequada e atividade física para melhorar o controle glicêmico. A indicação brasileira também abrange pacientes pediátricos a partir dos 10 anos, conforme a ampliação aprovada pela Anvisa em abril de 2026.
Controle crônico do peso: o medicamento pode ser utilizado, associado a uma dieta com redução de calorias e ao aumento da atividade física, por adultos com obesidade ou com sobrepeso acompanhado de condições relacionadas ao peso.
Os critérios aprovados para essa indicação incluem:
- Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², caracterizando obesidade; ou
- IMC igual ou superior a 27 kg/m², caracterizando sobrepeso, associado a pelo menos uma condição relacionada ao peso, como hipertensão arterial, alterações do colesterol, apneia obstrutiva do sono, doença cardiovascular, pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
A indicação não significa que o medicamento seja apropriado para qualquer pessoa que queira emagrecer. A decisão depende de avaliação clínica, histórico de saúde, medicamentos em uso e análise individual dos benefícios e riscos.
O que os estudos clínicos revelaram sobre a perda de peso?
Os estudos SURMOUNT-1 e SURMOUNT-2 investigaram a eficácia da tirzepatida no controle do peso em pessoas com sobrepeso ou obesidade, com diferenças entre as populações estudadas.
No SURMOUNT-1, realizado com adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, a redução média do peso corporal após 72 semanas variou de aproximadamente 15% a 20,9%, conforme a dose estudada. No grupo que recebeu placebo, a redução média foi de aproximadamente 3,1%.
No SURMOUNT-2, que incluiu participantes com diabetes tipo 2 e sobrepeso ou obesidade, a redução média após 72 semanas ficou entre aproximadamente 13,4% e 15,7% com as doses avaliadas de 10 mg e 15 mg. No grupo placebo, a redução foi de aproximadamente 3,3%.
Os resultados contribuíram para a aprovação da indicação de controle crônico do peso no Brasil.
É importante ressaltar que essas porcentagens representam médias de grupos participantes de estudos clínicos. Não constituem uma promessa de resultado individual, e a resposta ao tratamento varia de acordo com fatores clínicos e comportamentais.
Fonte: Anvisa — informações sobre a indicação e os estudos clínicos da tirzepatida.
Mounjaro e Zepbound: qual é a diferença?
A página oficial de medicamentos da Eli Lilly nos Estados Unidos apresenta duas marcas que contêm o mesmo princípio ativo: Mounjaro e Zepbound. Apesar de compartilharem a tirzepatida, os produtos possuem indicações regulatórias distintas naquele mercado.
Mounjaro: é indicado nos Estados Unidos para melhorar o controle da glicose em adultos e crianças a partir dos 10 anos com diabetes tipo 2, em conjunto com dieta e exercícios.
Zepbound: é indicado nos Estados Unidos para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou determinados casos de sobrepeso, além de possuir indicação para adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono moderada a grave.
As diferenças entre as marcas refletem as indicações autorizadas e a estratégia regulatória adotada naquele país. A existência de duas marcas não significa que os produtos possam ser trocados livremente ou utilizados sem avaliação médica.
No Brasil, o Mounjaro possui indicação aprovada tanto para diabetes tipo 2 quanto para o controle crônico do peso, dentro dos critérios estabelecidos pela Anvisa. As indicações norte-americanas do Zepbound não devem ser automaticamente consideradas aprovações brasileiras.
Informações oficiais: Lilly — Mounjaro e Zepbound e Lilly — medicamentos atuais.
Foundayo: outro medicamento que aparece no catálogo da Lilly
O catálogo norte-americano da Eli Lilly também apresenta o Foundayo, medicamento oral cujo princípio ativo é a orforgliprona.
Diferentemente do Mounjaro e do Zepbound, que contêm tirzepatida e são administrados por injeção, o Foundayo é apresentado em comprimidos. A orforgliprona pertence a uma classe farmacológica diferente, sendo um agonista do receptor de GLP-1.
A presença desses produtos no mesmo catálogo demonstra que a empresa desenvolve tratamentos para diferentes necessidades metabólicas. Entretanto, os medicamentos não são equivalentes, e suas indicações, contraindicações e formas de utilização devem ser analisadas separadamente.
A disponibilidade e as aprovações de cada produto variam conforme o país. Para verificar a situação regulatória brasileira de um medicamento, é necessário consultar os registros e as informações oficiais da Anvisa.
Fonte: Catálogo oficial de medicamentos da Eli Lilly.
Como o Mounjaro é administrado?
O Mounjaro é administrado por injeção subcutânea, geralmente uma vez por semana, nos locais indicados na bula, como abdômen, coxa ou parte posterior do braço.
A dose inicial habitual é de 2,5 mg uma vez por semana. Os ajustes posteriores dependem da indicação, da resposta ao tratamento e da tolerabilidade, respeitando os intervalos previstos na bula.
A dose não deve ser aumentada, reduzida ou interrompida por iniciativa própria. O paciente também não deve compartilhar a caneta injetora com outra pessoa, mesmo que a agulha seja substituída.
A apresentação e as instruções específicas de uso devem ser conferidas na bula brasileira correspondente ao produto adquirido.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns?
As reações adversas mais frequentemente relatadas incluem:
- Náuseas;
- Diarreia;
- Vômitos;
- Constipação intestinal;
- Diminuição do apetite;
- Indigestão;
- Dor abdominal.
Os sintomas gastrointestinais podem ser mais perceptíveis no início do tratamento ou após aumentos de dose. Sua intensidade varia entre os pacientes.
Existem também riscos menos frequentes, mas clinicamente importantes, que exigem atenção, incluindo pancreatite aguda, problemas na vesícula biliar, reações alérgicas graves e desidratação capaz de comprometer a função renal.
O uso concomitante com insulina ou determinados medicamentos que estimulam a secreção de insulina pode aumentar o risco de hipoglicemia.
Dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando acompanhada de vômitos, requer avaliação médica urgente. Dificuldade para respirar, inchaço importante ou outros sinais de reação alérgica grave também exigem atendimento imediato.
Alerta sobre a tireoide: o que diz a bula?
A bula norte-americana do Mounjaro apresenta um alerta destacado sobre tumores das células C da tireoide observados em estudos com ratos. Ainda não está estabelecido se esse achado representa um risco equivalente em seres humanos.
De acordo com a bula dos Estados Unidos, o medicamento é contraindicado para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e para pacientes com síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, conhecida como NEM 2.
Sinais como massa no pescoço, dificuldade para engolir, falta de ar ou rouquidão persistente devem ser avaliados por um profissional de saúde.
É necessário distinguir o texto da bula norte-americana daquele aprovado no Brasil. Para decisões clínicas, devem ser consultadas as contraindicações e advertências da bula brasileira vigente, disponível por meio do Bulário Eletrônico da Anvisa.
Gravidez, contraceptivos e outros medicamentos
A utilização da tirzepatida durante a gravidez exige atenção especial. Dados de estudos em animais indicam possibilidade de danos ao feto, e a conduta deve ser definida com orientação médica.
O medicamento também retarda o esvaziamento gástrico, podendo interferir na absorção de medicamentos administrados por via oral.
A bula norte-americana recomenda que mulheres que utilizam contraceptivos hormonais orais adotem um método contraceptivo não oral ou acrescentem um método de barreira durante quatro semanas após o início do tratamento e durante quatro semanas após cada aumento de dose.
Essa orientação específica deve ser conferida na bula aplicável ao país e ao produto utilizado.
Pacientes que utilizam medicamentos contínuos, especialmente tratamentos para diabetes, devem informar ao profissional responsável sobre todos os produtos em uso. Quem tem cirurgia ou procedimento planejado com anestesia geral ou sedação profunda também deve informar à equipe de saúde que utiliza tirzepatida.
Manipulação caseira e produtos irregulares preocupam autoridades sanitárias
A popularidade da tirzepatida aumentou a circulação de ofertas de produtos injetáveis e de conteúdos que ensinam a diluir substâncias em casa.
Em setembro de 2026, a Anvisa publicou um alerta específico contra a manipulação caseira de tirzepatida. Segundo a agência, a diluição e a aplicação de produtos sem condições adequadas de fabricação estéril podem provocar contaminação e infecções graves.
A orientação é não preparar, diluir ou injetar substâncias de procedência desconhecida por conta própria. A aquisição deve ocorrer por canais regularizados, com prescrição e observância das normas sanitárias aplicáveis.
É importante verificar a integridade da embalagem, a procedência do produto e a documentação fiscal. Tutoriais na internet não substituem procedimentos farmacêuticos adequados nem orientação profissional.
Fonte: Anvisa — manipulação caseira de tirzepatida não é segura.
O medicamento substitui dieta e atividade física?
Não. O tratamento com tirzepatida deve integrar uma estratégia de cuidado que considere alimentação, atividade física e acompanhamento clínico.
No controle do peso, a redução da ingestão calórica e o aumento da atividade física fazem parte da indicação aprovada. O acompanhamento também permite avaliar a evolução do peso, o controle glicêmico, a tolerabilidade e a necessidade de ajustes.
A automedicação, o uso de doses acima das recomendadas e a interrupção sem orientação podem comprometer a segurança do tratamento.
Conclusão: eficácia exige responsabilidade
O Mounjaro representa uma opção terapêutica importante para o diabetes tipo 2 e para o controle crônico do peso em pacientes que atendam aos critérios aprovados. Os resultados dos estudos clínicos demonstram potencial de eficácia, mas precisam ser interpretados em conjunto com os riscos e as características individuais de cada paciente.
As informações divulgadas pela Eli Lilly permitem compreender as diferenças entre Mounjaro, Zepbound e Foundayo, enquanto as decisões sobre uso no Brasil devem respeitar as indicações autorizadas pela Anvisa.
Antes de iniciar ou modificar o tratamento, é fundamental consultar um profissional habilitado e verificar a bula oficial do medicamento.
Este conteúdo tem finalidade jornalística e informativa. Não substitui consulta médica, prescrição ou avaliação individualizada.
Fontes oficiais
- Eli Lilly — medicamentos atuais
- Eli Lilly — informações sobre Mounjaro e Zepbound
- Anvisa — indicação do Mounjaro para controle crônico do peso
- Anvisa — ampliação da indicação pediátrica
- Anvisa — alerta sobre manipulação caseira de tirzepatida
- Anvisa — Bulário Eletrônico
José Carlos de Morais é jornalista, repórter e fotógrafo, com atuação na produção de notícias, reportagens, entrevistas e cobertura de eventos. Também trabalha com comunicação digital, produção de conteúdo e desenvolvimento de projetos para mídia e internet.
Apaixonado por jornalismo, fotografia, cultura e histórias de pessoas, busca levar ao público informação, credibilidade e diferentes perspectivas sobre os acontecimentos. Atua na produção e edição de conteúdos para o C77.TV, contribuindo para a divulgação de notícias, eventos e iniciativas de interesse da comunidade brasileira e internacional.
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